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nomundodalua

02/05/2004 22:37
EPITÁFIO

Lágrimas, lágrimas, lágrimas

Em todos os rostos presentes e também em todos os cantos da minha face...
O relato é único, e jamais será repetido porque só hoje vi ser posto terra num dos maiores amores que tive.
De repente aquilo que era tão presente não mais existe, no lugar do sorriso desdentado e da voz trêmula, apenas o silêncio e a rigidez de uma pele tão branca e gélida, corroída pelo tempo e pelas chagas da vida. Agora lembrei-me de uma coisa que minha mãe falou: “Meu pai foi uma pessoa tão boa, não devia ter sofrido tanto assim!” Se servir de ensinamento, Jesus Cristo foi um grande homem e também sofreu em seu martírio.
Prantos, prantos, prantos...
Como calar a dor da saudade mais verdadeira, aquela de nunca mais ver a pessoa que se ama? Como aceitar que ele não vai mais existir? Me diga como!!! Por que eu não sei...
De todos o mais querido, honrado, respeitado, lúdico, forte e demasiado humano, tinha lá seus vícios...seus pileques de outrora que o digam. Sobre meu avô Manoel Freire, desabaram dois AVCs (Acidente vascular cerebral) ele ainda suportou durante um tempo, mas a vida já lhe tinha tomado a alegria e o fulgor.
A razão diz:
-Ele se libertou, foi melhor para ele cumpriu seu destino.

A emoção insana acha o ritual todo muito dolorido e estranho.
[Ela indaga]

-Vozinho esse caixão é muito apertado?
-Ele deve ser desconfortável!
-Essas rosas que cobrem seu corpo, o cheiro deve enjoar!
-E essas pessoas que mal te conhecem! Queres que eu as mande embora? O senhor era um ranzinza tão engraçado, certamente mandaria esse povo procurar o que fazer!
-Vô! Vô! Vô! Vô! Vô!...
.................................................(silêncio)

Terra, terra, terra...

A tampa vai fechar o caixão, vai ficar escuro e ele sempre queria ter uma luz fraca perto dele...
Um buraco no chão, um vazio enorme no peito... para que enterrar se os frutos dele já estão maduros? Me causa estranhamento o ritual dos humanos, por vezes me acho na contramão da natureza...

Ele morreu, meu avô Manoel Freire morreu.

Ponto final [.]

Várias lágrimas, várias lágrimas, várias lágrimas...
enviada por amelie poulain






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